Entrevista com Eros, um dos diretores da websérie ‘minha vida em gêmeos’
A websérie produzida em Fortaleza aborda a questão das relações que sobrevivem ao tempo e outras que não resistem à verdade.
SAULO CORLEONECULTURA
7/29/20265 min ler


Nessa minha reestreia na coluna de cultura do Bolchenews, decidi entrevistar Eros, um amigo que conheci quando trabalhávamos na Rede Cuca de Fortaleza. Para quem não é da 'Cidade Alencarina', permita-me explicar o que diacho é a Rede Cuca: uma política pública para as juventudes. São vários equipamentos públicos espalhados por áreas periféricas que levam Cultura, Esporte, Ensino e mais oportunidades para diversas pessoas. Para quem quiser conhecer mais sobre a Rede Cuca, temos um documentário no Canal do Youtube do Bolchenews:



No que tange a cultura, a cena de Fortaleza se destaca em diversos aspectos, seja no humor, na música, no teatro, dança e tantas outras manifestações artísticas. No audiovisual não é diferente ! Nessa entrevista com o Eros, vamos abordar alguns aspectos e perrengues das produções do audiovisual independente de Fortal.
1. (Saulo) - Uma das séries que você dirigiu aborda a questão de violências contra jovens mulheres em um contexto de periferização e precarização da vida. Como vocês articulam a denúncia dessas violências com a crítica ao sistema que as engendra - o capitalismo, o racismo estrutural e o machismo enquanto pilares de opressão?
Eros: Nossa proposta não é apresentar essas violências como acontecimentos individuais ou fruto de escolhas pessoais, mas revelar como elas são produzidas e agravadas por estruturas sociais, e como a influência de pessoas ao redor, tanto da vítima quanto do agressor, torna-se essencial para que a violência não fique impune e também não se perpetue. No decorrer da rotina das personagens, a série propõe uma reflexão sobre essas estruturas sem perder o ponto de vista humano da narrativa.
Além de denunciar as violências, buscamos evidenciar redes de apoio, estratégias de resistência e a potência da organização coletiva, apontando para a necessidade de reivindicações sociais. Uma das formas que encontramos de ampliar o impacto da série para além da tela foi levar oficinas a escolas públicas de ensino médio. Nessas oficinas, conversamos sobre a prevenção das diferentes formas de violência contra jovens mulheres. Também mostramos que é possível produzir audiovisual com poucos recursos, utilizando equipamentos simples, como celulares.
2. A proposta de gerar debate sobre violência contra jovens mulheres parte de que compreensão política sobre a conscientização? Vocês entendem a série como ferramenta de agitação e propaganda para ajudar na construção de uma conscientização sobre o tema?
Eros: A série surge a partir de experiências vividas por roteiristas parceiras, adaptadas para a narrativa. Mostramos que violências sutis continuam sendo violências e como muitas delas passam despercebidas por quem as presencia e vive. Também construímos uma narrativa que aproxima o público das personagens, criando identificação e evitando a evasão logo no começo por tratar de temas delicados. Assim, buscamos manter o interesse de quem assiste e levar essa reflexão e denúncia ao maior número de pessoas possível.
3. Produzida com recursos limitados e de forma independente, a série é fruto de um esforço coletivo que reflete as condições materiais de quem produz cultura na periferia do capitalismo. Como foi o processo de trabalho? Vocês sentem dificuldades de obter recursos públicos via editais?
Eros: Nossa série é totalmente independente, produzida com recursos limitados e financiada por nós, Eros e Peterson Wilker, diretores do projeto. Essa foi uma decisão movida pelo desejo de tirar nossas produções do papel, após algumas tentativas de participar de editais que não deram certo, seja pelas burocracias, pelos prazos curtos ou pela falta de oportunidades para o formato de websérie. Infelizmente, isso ainda não nos permite remunerar nossa equipe e nossos atores, e esse é um dos nossos maiores objetivos: mais do que monetizar o projeto, queremos valorizar e remunerar o trabalho de todas as pessoas envolvidas, que, em sua maioria, são profissionais excluídos ou esquecidos pelo mercado por inúmeros tipos de discriminação.


4 - Como vocês avaliam o lugar do Nordeste e de Fortaleza na produção audiovisual brasileira, marcada historicamente pela centralidade do eixo Rio-São Paulo? A série carrega uma intencionalidade de atribuir um outro olhar sobre a produção cultural periférica?
Acreditamos que tanto Minha Vida em Câncer quanto Minha Vida em Gêmeos são frutos das diferentes formas de expressão artística dos profissionais nordestinos que formam toda a equipe do Estúdio Maria Maluca. Por isso, cada integrante traz seu próprio olhar, suas vivências e experiências em diferentes periferias. Assim, a série não carrega apenas uma única perspectiva, mas é construída a partir de vários olhares, tornando a narrativa mais rica, diversa e próxima da realidade.
5 - Fortaleza tem uma tradição de produção cultural de resistência que vai do cinema de Eduardo Coutinho ao rap e ao cordel. Como a websérie dialoga com essa tradição local e com a memória de luta do povo cearense?
Nossa série procura mostrar essa tradição ao colocar jovens de Fortaleza como protagonistas de suas próprias histórias. Queremos retratar experiências reais, como o primeiro amor, o primeiro emprego, amizades, relações tóxicas e os desafios do dia a dia, mostrando que essas vivências também merecem espaço e protagonismo no audiovisual. Além disso, Fortaleza não é apenas o cenário da série, mas quase uma personagem. Fazemos questão de mostrar a beleza da cidade, seus bairros e seus espaços, valorizando o território onde essas histórias acontecem. Acreditamos que, ao contar histórias a partir do olhar de quem vive essa realidade, também contribuímos para fortalecer a produção cultural cearense e sua tradição de resistência, dando visibilidade às vozes e experiências de quem as vive diariamente.
6 - Por fim, qual a mensagem política que vocês gostariam que ficasse para as juventudes que assistem à série, especialmente aquelas que vivem em condições de vulnerabilidade e enxergam na arte um horizonte de transformação?
Eros: Para mim, como artista e jovem periférico, Minha Vida em Câncer e, futuramente, Minha Vida em Gêmeos têm a intenção de despertar o sentimento de representatividade. Queremos que sejam obras para assistir e criar coragem, para amar, viver e arriscar. Como profissional e um dos produtores da série, sempre me emociono com uma fala do meu parceiro de trabalho: “Essa história é um sonho meu que se tornou realidade. Quando eu era criança, achava que isso era impossível, que nunca conseguiria fazer o que estamos fazendo. Eu rezava (sério!) para encontrar amigos que gostassem das mesmas coisas que eu.” Quando ouvi isso pela primeira vez, me perguntei por que esse sonho parecia tão distante para uma criança. É justamente por isso que queremos que quem sonha em fazer algo como o que estamos fazendo veja que é possível. Queremos mostrar que é possível enfrentar um sistema que muitas vezes tenta impedir a todo custo esse caminho, seja pela classe social, pelo território, pela raça ou pela sexualidade. Que nenhum artista deixe de viver sua arte.
Fotos: divulgação
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