Entrevista com Roberta da Horta (REDE-CE), pré-candidata a deputada estadual

Roberta da Horta nos concedeu uma entrevista para explicar algumas das propostas defendias pela candidatura.

SAULO CORLEONEPOLÍTICA

7/16/202610 min ler

O Bolchenews tem a honra de entrevistar Roberta da Horta, ativista cearense prestes a se formar em Nutrição e pré-candidata a deputada estadual pela Rede Sustentabilidade no Ceará.

1. Soberania Alimentar e o Enfrentamento ao Agronegócio
Saulo: Roberta, o seu programa traz duas propostas ecológicas e agrárias muito fortes: o plantio de 1 milhão de árvores frutíferas para garantir comida sem veneno e o fim do uso de agrotóxicos banidos na Europa ("Chega de veneno no nosso povo!"). Sabemos que a estrutura agrária do Ceará é historicamente dominada pelo latifúndio e pelo agronegócio de exportação, que detém grande parte das terras agricultáveis e o controle da água. Como a sua pré-candidatura pretende pautar a transição ecológica e o plantio dessas árvores sem esbarrar no poder político e econômico dos latifundiários? Para além da proibição do veneno, a sua plataforma enxerga a necessidade de uma Reforma Agrária popular e radical no Ceará para viabilizar a soberania alimentar?

Roberta: A transição agroecológica no Brasil e no Ceará já começou, longe da velocidade que nosso povo precisa, porém minha presença no parlamento terá a missão de articular uma Reforma Agrária Agroecológica e Popular. É urgente garantir Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) nos territórios cearenses, pois não existe dose segura de veneno nem soberania alimentar sem acesso à terra e à água. Ano passado, o presidente Lula instituiu o PRONARA, Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos, fortalecendo a agroecologia pelo Decreto nº 12.538/2025, porém ainda falta legislação em nível estadual. Em Fortaleza, onde resido, o prefeito Evandro Leitão sancionou a Lei Complementar nº 450/2025, que prevê hortas comunitárias, agroflorestas e outras ações para ampliar a produção de alimentos seguros. São 7 hortas agroecológicas públicas brotando na capital, a mais recente inaugurada no CRAS da Serrinha. Uma das missões do futuro Mandato da Horta é lutar pela aprovação da Lei da Agroecologia na Assembleia Legislativa do Ceará para expandir esse modelo, garantir assistência técnica e fortalecer quem enfrenta o poder do agronegócio produzindo alimentos livres de agrotóxicos. Hoje 1.300 Cozinhas Sociais do Ceará Sem Fome são locais importantes para receber hortas, sisteminhas de criação de tilápia e viveiros de mudas. Podendo apoiar o plantio do primeiro 1 milhão de árvores frutíferas nativas e adaptadas. Com o apoio do povo e dos governos federal, estadual e municipal, iremos semear mais que sonhos: vamos cultivar a verdadeira SAN e, no futuro, a liberdade alimentar no Ceará. A luta por terra, território e água limpa, que vem de milênios e séculos de resistência dos povos do campo, dos movimentos sociais e de lideranças como Zé Maria do Tomé, assassinado com 25 tiros pelas costas em 21 de abril de 2010 após denunciar o uso abusivo de agrotóxicos e a contaminação da água na Chapada do Apodi no Ceará. Em 2017, o Tribunal de Justiça do Ceará decidiu que apenas um dos três acusados iria ao júri popular, enquanto o acusado de ser o idealizador da execução, João Teixeira Júnior, dono da Frutacor, e José Aldair Gomes Costa, gerente da empresa à época, foram despronunciados, logo, estão impunes. Não podemos permitir que execuções por motivos torpes permaneçam impunes. Isso tem que mudar, mas para acontecer, a PEC 18/2025 da Segurança pública deve ser aprovada no Senado e Congresso.

2. Financiamento do Passe Livre e a Crítica ao Modelo de Concessão
Saulo: Uma das bandeiras mais urgentes para a juventude e para a classe trabalhadora urbana no seu panfleto é a conquista do Passe Livre para a classe trabalhadora e a transformação do sistema de ônibus público. Historicamente, o transporte público nas grandes cidades e regiões metropolitanas do Ceará funciona como um cartel bilionário gerido por empresas privadas que lucram em cima da precarização do serviço. A defesa do Passe Livre na sua campanha passa pela encampação e estatização completa do sistema de transporte sob controle dos trabalhadores, ou o modelo prevê subsidiar o lucro das empresas privadas de ônibus com dinheiro público? Como enfrentar o lobby dos transportes na Assembleia Legislativa?

Roberta: Eu conheço a precarização do transporte público porque a vivo todos os dias. Sou moradora de Sapiranga e sinto na pele a retirada das linhas 755 e 855, sem qualquer consulta pública à população. Meu bairro não possui nenhuma CEI, CRAS, UPA ou CUCA, mas abriga um centro estadual de detenção infanto-juvenil socioeducativo. Investir na juventude antes que ela chegue ao sistema carcerário, começa garantindo o direito de ir e vir. O Ceará já possui experiências importantes de Passe Livre. Quatro municípios já adotam tarifa zero, Caucaia, Aquiraz, Eusébio e Maracanaú e em Fortaleza, na luta, conseguimos garantir dois passes gratuitos todos os dias para estudantes, e o Prefeito garantiu o passe livre nessas férias e feriados, além da integração de duas horas. Esses avanços mostram que as políticas de gratuidade são possíveis e devem ser ampliadas. Numa cidade com cerca de 2,5 milhões de habitantes, universalizar o Passe Livre exige responsabilidade. Não basta anunciar uma medida: é preciso realizar estudos técnicos, revisar os contratos de concessão, conhecer os custos reais do sistema e discutir com muita transparência com a população, qual é o melhor modelo de financiamento. Se a conclusão técnica seja o acampamento do sistema de transporte, o debate deve ser feito de forma séria e com ampla participação popular e sindical da categoria. Além disso, mobilidade não é apenas tarifa e troca de ônibus. É inadmissível que milhares de fortalezenses ainda esperem o ônibus em pontos sem climatização, sem cobertura, sem bancos e sem qualquer proteção contra sol ou chuva. Quem paga pelo transporte — direta ou indiretamente, por meio dos impostos — merece um serviço digno, seguro e de qualidade. Agora o que mais gosto na capital são as várias ciclofaixas, todavia, vejo que o investimento público deve ampliar os km, além de existir necessidade de manutenção periódica. E sobre as possíveis máfias, se alguém tem coragem de fazer, que tenha coragem de arcar com as consequências e por isso, mais um vez, defendo que a PEC 18/2025 da Segurança Pública seja aprovada para que o Presidente Lula crie o Ministério da Segurança Pública.

3. Orçamento da Saúde Básica e a Emancipação do Interior
Saulo: No campo da saúde, você defende a garantia de Equipes e-Multi em todos os postos de saúde do Ceará, integrando psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas e outros profissionais para assegurar direitos humanos básicos. No entanto, as regras fiscais vigentes amarram o investimento público. De onde virão os recursos para custear essa contratação massiva de profissionais concursados para os postos de saúde? Como sua candidatura pretende combater a lógica da terceirização via OSs (Organizações Sociais), que transforma a saúde em mercadoria, para garantir essa dignidade que você propõe?

Roberta: A pergunta não deveria ser 'de onde virá o dinheiro?', mas 'para onde está indo o dinheiro público?'. Segundo a Auditoria Cidadã da Dívida, o Orçamento Federal de 2025 foi de R$5,054trilhões, com R$ 2,135 trilhões (42,24%) destinados a juros e amortizações da dívida, enquanto a Saúde recebeu apenas 4,27%, a Educação 3,18% e a Agricultura 0,80%. Por que tanta desigualdade? Esta é a era da EQUIDADE, e me inspiro no Manifesto da Esquerda Radical. As regras fiscais precisam ser reformuladas, pois priorizam o sistema financeiro em detrimento dos direitos sociais. Inverter essa lógica é começar a pagar a dívida histórica com nossa ancestralidade afroindígena, ampliando Bancos Comunitários como o Banco Palmas. O Estado não pode ser um Robin Hood às avessas; saúde é investimento, não despesa. Recursos existem, falta prioridade política. Sobre as OSs, elas são importantes e precisam ser regulamentadas, com prestação de contas rigorosa, mas não substituem o Estado em serviços permanentes. Defendo a transição gradual do privado para o público, transformando as cozinhas solidárias em Restaurantes Sociais (UPRS) com insumos da agroecologia da reforma agrária. Se o país gasta R$ 2,1 trilhões com uma dívida que é pública, mas nunca foi auditada pelo povo Brasileiro, pode e deve fortalecer o SUS, realizar concursos para e-Multi e garantir atendimento digno nas mais de 1.000 Unidades Básicas para os 9 milhões de cearenses!

4. O Significado Histórico da Segunda Abolição
Saulo: Um dos slogans de sua campanha afirma: "vamos conquistar nossa segunda abolição cearense juntinho". O Ceará se orgulha de ter sido o pioneiro na abolição da escravidão em 1884, mas nós, marxistas, sabemos que aquela abolição foi jurídica e formal, deixando a população negra sem terra, sem emprego digno e à margem do sistema econômico. No seu panfleto, você cita um forte relato pessoal: "Meu filho é a primeira geração da minha família que não precisa trabalhar para comer". O que significa, na prática, essa segunda abolição para a sua campanha? Ela pressupõe uma ruptura com a estrutura de classes que ainda mantém a maioria do povo negro e periférico do Ceará sob a lógica da superexploração do trabalho?

Roberta: Primeiro, eu faria uma correção histórica. A abolição no Ceará não pode ser resumida à lei de 1884. Como demonstra o historiador José Hilário Ferreira Sobrinho, ela foi conquistada pela luta dos próprios negros com as greves dos jangadeiros da Praia do Peixe, atual Mucuripe, em 1881, quando meus ancestrais se recusaram a transportar pessoas escravizadas para os navios negreiros. Foram os mais interessados que lutaram pela própria liberdade. Meu avô materno nasceu, cresceu e foi jangadeiro nessa praia. Antes mesmo de eu nascer, minha família, que tinha casa com piso e havia acabado de garantir energia elétrica, foi retirada à força em 1971 para um bairro a 12 km de distância da praia e em barracos de madeira e lona. Por isso, essa história não está apenas nos livros: ela faz parte do meu DNA. Quando digo que meu filho é a primeira geração da minha família que não precisa trabalhar para comer, mostro que a pobreza não é um destino individual, mas o resultado de uma estrutura histórica de exclusão e tirania oligárquicas. Quando falo em uma Segunda Abolição, estou falando de concluir a luta iniciada no Século 19. A primeira garantiu liberdade jurídica, mas não assegurou terra-território, moradia digna, educação pública de qualidade, crédito, trabalho e renda.
As correntes de ferro foram substituídas por mecanismos legais e econômicos que continuam concentrando terra-território, riqueza, crédito e poder nas mãos de poucos. E também por um modelo agrícola dependente de agrotóxicos que, segundo o Dossiê Danos dos Agrotóxicos na Saúde Reprodutiva, compromete a saúde reprodutiva, contamina a água, o solo e os alimentos. Por isso, sim, a Segunda Abolição pressupõe romper com esse modelo de desigualdade. Defendo fortalecer e ampliar os bancos comunitários, públicos e sociais, como o exemplo do Banco Palmas.
Só assim para democratizar o acesso ao crédito, melhorar as habitações, impulsionar a produção agroecológica, gerar trabalho, renda e autonomia. Desenvolvimento de verdade é aquele que fortalece os territórios, protege a saúde do povo e distribui oportunidades. Essa é a segunda abolição que proponho: transformar a liberdade formal em liberdade material. Mas essa ruptura histórica não será obra de uma única pessoa nem de um único mandato. Ela só acontecerá se o povo cearense decidir escrevê-la juntim dessa horta. Se tivermos coragem de democratizar a terra-território, o crédito, o conhecimento e as oportunidades, vamos conquistar nossa Segunda Abolição Cearense, juntim! Bora?

5. Alianças e a Luta Institucional
Saulo: Para encerrar, Roberta, o BolcheNews acompanha de perto como o pragmatismo eleitoral muitas vezes esvazia programas bonitos e combativos em nome de alianças com partidos de centro e de direita para garantir governabilidade. Caso eleita, como você pretende manter a radicalidade dessas propostas, como água e saneamento para todos e escolas públicas 100% estruturadas, sem se render às pressões das bancadas governistas e do fisiologismo da Assembleia Legislativa? O seu mandato apostará na mobilização popular das ruas para constranger o Parlamento ou na negociação institucional clássica?

Roberta: Eu acredito que política se faz como uma boa feijoada. Todo mundo gosta do prato pronto, mas pouca gente vê o trabalho que existe antes dele chegar à mesa. É preciso escolher o feijão, reunir os ingredientes, colocar tudo na panela de pressão e esperar o tempo certo para os sabores se encontrarem. Hoje, infelizmente, uma feijoada preparada com alimentos produzidos com segurança alimentar e nutricional, como os orgânicos, ainda é privilégio de quem tem muito dinheiro. E isso não está certo. A história do povo cearense e brasileiro mostra que nenhuma grande conquista caiu do céu. A abolição da escravidão no Ceará, a redemocratização do país, o SUS, a Constituição de 1988, a agricultura familiar fortalecida, os bancos comunitários, o Ceará Sem Fome, a ampliação do Passe Livre e tantas outras vitórias nasceram da organização popular, da participação social e da coragem de um povo que nunca desistiu de lutar por seus direitos.
Tenho orgulho de fazer parte dessa caminhada coletiva. Na política acontece da mesma forma. O Mandato da Horta vai dialogar dentro da Assembleia Legislativa para construir consensos quando forem possíveis e defender com firmeza os interesses da população. Mas a maior força de qualquer mandato popular continuará sendo a sociedade organizada, ocupando os espaços de decisão, fiscalizando o poder público e ajudando a transformar propostas em políticas públicas. Conquistar a nossa Segunda Abolição Cearense também será uma construção coletiva. Quanto mais oportunidades o povo tiver para estudar, produzir, empreender, cuidar da saúde, acessar crédito, cultura, água, saneamento e alimentação segura, maior será a liberdade para construir o futuro próspero para nossa gente trabalhadora! Nossa união é a solução e torço para que o povo cearense escolha no dia 04 de outubro de 2026, representantes comprometidos com o interesse público e com a ampliação de oportunidades para todas, todos e todes, para que possamos mudar a nossa sorte e construir um Ceará mais justo, sustentável e solidário. Vamos fazer essa feijoada e conquistar nossa Segunda Abolição Cearense juntim!

Fontes:

1 - https://www.gov.br/secretariageral/pt-br/assuntos/pronara

2 - https://ojoioeotrigo.com.br/2023/04/frutas-privatizacao-de-territorios-irrigados-no-ne-expulsa-pequenos-agricultores/

3 - https://www.tjce.jus.br/noticias/justica-conclui-julgamento-da-morte-de-ambientalista-de-limoeiro-do-norte/

4 - https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2025/04/pec-da-seguranca-publica-o-que-muda-e-por-que-causa-polemica

5 - https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/107342/tarifa-zero-cresce-e-chega-a-145-cidades-e-5-4-milhoes-de-pessoas

6 - https://www.fortaleza.ce.gov.br/noticias/prefeito-evandro-leitao-sanciona-passe-livre-todo-dia-ampliado-para-ferias-fins-de-semana-e-feriados

7 - https://auditoriacidada.org.br/conteudo/orcamento-federal-de-2025-ate-4-de-junho-534-para-juros-e-amortizacoes-da-divida/

8 - https://forbes.com.br/listas/bilionarios-brasileiros-2025/

9 - https://bancadaesquerdaradical.com.br/manifesto/

10 - "Catirina minha nega, Teu sinhô ta te querendo vende, Pero Rio de Janeiro, Pero nunca mais te vê, Amaru Mambirá" | https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/56005?locale=en

11 - https://abrasco.org.br/download/dossie-danos-dos-agrotoxicos-na-saude-reprodutiva/

BOLCHENEWS

Fique por dentro das últimas notícias

contato

© 2025. All rights reserved.