Extrema direita e Big Techs: Entrevista Com Ergon Cugler

O Bolchenews tem a honra de convidar para uma entrevista, Ergon Cugler, pesquisador, cientista de dados e autor dos livros “IA Cracia: Como enfrentar a ditadura das Big Techs” e “O fim da realidade: Um mundo fora de nós”. É a primeira pessoa autista a se tornar Conselheiro da Presidência da República, compondo portanto o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS) e atuando com foco em inclusão, soberania digital, regulação de plataformas e enfrentamento à desinformação. Reúne 895 produções entre artigos científicos e de opinião, entrevistas, palestras, cartilhas e softwares, com participação no Brasil e no exterior.

SAULO CORLEONEPOLÍTICA

7/29/20266 min ler

1 - (Saulo) A extrema direita global parece ter decodificado o algoritmo das redes sociais muito antes das forças progressistas ou das instituições democráticas tradicionais. Na sua pesquisa, o que explica essa vantagem tática? É apenas uma questão de falta de escrúpulos ao usar fake news, ou há uma arquitetura digital que os favorece independentemente dessa tática?

Ergon: A vantagem da extrema direita não decorre apenas da falta de escrúpulos, mas da própria afinidade entre a ideologia reacionária e o modelo de negócios das plataformas. As redes sociais são arquitetadas para maximizar a extração de dados através do engajamento contínuo, e nada engaja mais no capitalismo tardio do que afetos reativos como o medo, a indignação e o ressentimento da classe trabalhadora precarizada. A extrema direita opera como a expressão política mais ajustada a esse ecossistema; portanto, a desinformação não é uma anomalia do sistema, mas o combustível central de um extrativismo de dados que atua como fiador da hegemonia reacionária. Além disso, há toda a influencia do dinheiro. Quando observamos o volume de dinheiro que a extrema direita investe em impulsionamento em redes sociais temos um distanciamento significativo em relação às forças progressistas. Portanto, é uma combinação de: Falta de escrúpulos, desenho dos algoritmos das plataformas e muito dinheiro investido.

2 - Comenta-se muito sobre o apito de cachorro (dog whistling) e a radicalização em fóruns e redes sociais. Como você descreveria o funil de radicalização hoje no Brasil? Como uma pessoa comum, muitas vezes apenas buscando senso de comunidade, acaba cooptada por essas redes de extrema direita?

A cooptação pela extrema direita não acontece da noite para o dia, mas por uma porta de entrada silenciosa: a pessoa entra em um grupo buscando apenas tirar dúvidas, rir de memes ou encontrar uma comunidade que acolha suas angústias em momentos de crise, mas logo é fisgada por um funil planejado de radicalização. Quando um usuário comum entra na rede social, começa vendo um conteúdo focado em críticas ao movimento "anti-woke" ou a pautas de gênero e, a partir dali, passa a receber links para compor grupos que enviam conteúdos sobre teorias conspiratórias globais, ataques a vacinas, revisionismo histórico e até discursos de ódio abertos. Fiz um levantamento em 2024 onde identifiquei esse mecanismo em mais de 100 comunidades no Telegram com cerca de 188 mil usuários, mostrando como esses grupos reacionários servem justamente de ponte para empurrar o cidadão comum rumo a redes nazistas.
(Anti-woke agenda, gender issues, revisionism and hate speech communities on Brazilian Telegram: from harmful reactionary speech to the crime of glorifying Nazism and Hitler - https://doi.org/10.48550/arXiv.2409.00325).

3 - Diante de um ecossistema que lucra com o engajamento gerado pela raiva e pelo medo, desmentir fake news com fatos e dados ainda é uma estratégia eficiente, ou já perdemos essa disputa de hegemonia?

A checagem de fatos cumpre parte do papel para desmascarar mentiras cotidianas, mas ela sozinha não é suficiente para vencer a cruzada da mentira. O problema é que a desinformação não se combate apenas com dados frios: as pessoas muitas vezes acreditam ou compartilham uma fake news não por falta de aviso, mas porque aquela história conversa com as dores, medos e angústias reais do seu dia a dia. A extrema direita sabe usar muito bem essa disputa de afetos para preencher um vazio de acolhimento. Por isso, para além de desmentir o que é falso, precisamos construir narrativas populares fortes que mostrem a verdadeira raiz das dificuldades do povo, que é a exploração do sistema em que vivemos, e deem um horizonte real de esperança e mudança concreta na vida das pessoas.

4 - O termo Soberania Digital às vezes soa um pouco abstrato para o grande público. Como você explicaria, de forma prática, o que o Brasil perde todos os dias ao depender quase que integralmente da infraestrutura, servidores e algoritmos de Big Techs estrangeiras?

Soberania Digital não é um debate acadêmico distante, mas a chave para a nossa independência nacional e econômica contra o colonialismo do século XXI. Na prática, o Brasil gasta cerca de R$ 23 bilhões com softwares estrangeiros (sendo R$ 10 bilhões em um único ano), dinheiro que vai direto para o caixa das Big Techs em vez de virar desenvolvimento local. Para se ter dimensão do absurdo, esses R$ 23 bilhões seriam suficientes para construir 86 data centers de alta capacidade (Tier 3 de 5MW), colocando o país na disputa tecnológica global; já os R$ 10 bilhões anuais pagariam bolsas para absolutamente todos os 250 mil mestrandos e 100 mil doutorandos do Brasil por um ano inteiro

(pesquisa que coordenei: https://www.intercept.com.br/2025/07/08/brasil-torrou-10-bilhoes-em-um-ano-com-bigtechs/).

Enquanto mantivermos o Estado, os bancos e serviços como o SUS reféns de servidores e algoritmos de monopólios estadunidenses, nossa memória, cultura e segurança estarão vulneráveis. Por isso, não basta defender um desenvolvimentismo liberal genérico: precisamos de uma soberania digital popular, que coloque essa infraestrutura e a produção científica a serviço da classe trabalhadora e da nossa autonomia de verdade.

5 - Quando vemos plataformas como o X (antigo Twitter) ou o Telegram desafiando abertamente a Justiça brasileira, acusando censura e tentando desviar das obrigações constitucionais no Brasil, estamos assistindo a um choque de poderes entre Estados e corporações. Como construir uma soberania digital num país do Sul Global?

A postura do X e do Telegram expõe a tentativa do poder corporativo monopolista de se colocar acima dos Estados nacionais, operando como verdadeiros entes imperiais fora da lei. Para o Sul Global, a resposta a esse choque de poderes não pode se limitar à regulação jurídica de mercado, exigindo a construção de infraestrutura pública crítica de comunicação e processamento de dados tratada como bem estatal estratégico. Essa soberania só se tornará viável se aliarmos o desenvolvimento de plataformas públicas de código aberto a uma articulação internacionalista e multilateral entre os países da periferia do capital, que permita enfrentar o monopólio do Vale do Silício de forma coordenada e soberana.

6 - O ambiente universitário e o debate público ainda são espaços muito hostis ou inacessíveis para pessoas neurodivergentes. Na sua visão de professor, quais são as principais barreiras que precisamos derrubar para termos mais pesquisadores autistas liderando debates estratégicos no Brasil?

A universidade brasileira foi historicamente estruturada sob o mito do produtivo ideal, impondo uma lógica produtivista e padronizada que atua como uma barreira capacitista direta contra pessoas neurodivergentes. Para garantir que pesquisadores autistas liderem debates estratégicos no Brasil, precisamos combater a precarização das métricas acadêmicas de prazo e desempenho, adaptar as estruturas institucionais de trabalho e reconhecer a neurodivergência não como um déficit a ser corrigido, mas como uma potência analítica dotada de rigor e perspectiva crítica indispensáveis para a produção de ciência soberana.

E aqui cabe um alerta: A esquerda brasileira tende a cair no papo idêntico à "terapia de cura gay" querendo curar pessoas autistas e "ajustar" o comportamento a uma "normalidade". Esse é um desafio sério para o nosso campo, pois antes dos nossos adversários que lucram com o "medo do autismo" em busca de "curas", temos companheiros e companheiras que caem no papo conservador da conversão do autismo com terapias que, por vezes, sequer possuem evidências científicas e que geram transtornos de estresse pós-traumático.

7 - Para encerrar, se você pudesse propor uma política pública urgente, que unisse a defesa da soberania digital à proteção dos cidadãos contra a manipulação da extrema direita, qual seria?

A política pública mais urgente seria a criação da Rede Pública de Infraestrutura e Nuvem Soberana combinada com a Proibição do Zero-Rating. Essa medida fortaleceria a infraestrutura crítica de dados e criaria uma nuvem pública auditável para proteger a memória e as instituições nacionais do extrativismo das Big Techs, ao mesmo tempo em que baniria a prática das operadoras de oferecer aplicativos privados "ilimitados" que empurram a população pobre para dentro dos silos de desinformação da extrema direita, garantindo em vez disso o acesso universal, gratuito e irrestrito à internet aberta para todo o povo brasileiro. Mas também avalio que construir uma Política Nacional de Soberania Digital ou uma Estratégia Nacional de Soberania Digital colaboraria com esse debate enquanto norte organizador de agendas.
BOLCHENEWS

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