O crime compensa no andar de cima.

Americanas e Banco Master como cases de sucesso da fraude no capitalismo brasileiro

JUSTIÇASAULO CORLEONENOTÍCIAS

1/19/20262 min ler

No capitalismo dependente brasileiro, raramente os grandes criminosos estão nas periferias das grandes cidades, raramente usam balaclava ou algum disfarce. Muitos bandidos estão de terno e gravata, frequentam conselhos administrativos, a Faria Lima, negociam grandes contratos e licitações com o Estado, além de contratar grandes escritórios de advocacia com contatos nos Tribunais Superiores. A pobreza é criminalizada, milhares de inocentes que nem foram julgados são jogados e recrutados pelas facções em um sistema prisional que cada vez mais se apodrece, enquanto os grandes crimes do capital seguem sendo tratados como falhas de governança ou de auditoria. Os escândalos envolvendo a Americanas e o Banco Master são didáticos. Não são exceções: são a regra do sistema capitalista que socializa prejuízos e privatiza lucros.

Americanas: a fraude como modelo de negócio

Em 14 de junho, a Americanas anunciou oficialmente aquilo que já circulava como burburinho no Mercado Financeiro: uma fraude contábil que inflou artificialmente os lucros da empresa em R$ 25,3 bilhões ao longo dos anos. Além disso, R$ 20,6 bilhões da dívida financeira bruta foram ocultados por meio de maracutaias contábeis.

O mecanismo sistemático de extração de valor, garantiu bônus milionários a executivos (Lemann e companhia), iludiu investidores e empurrou o rombo para trabalhadores, fornecedores e aposentados que tinham investido na empresa, comprando papéis na Bolsa de Valores que não valiam nem para limpar o rabo. É que no capitalismo real, diferente do manual da fantasia liberal, fraude não é desvio moral: é estratégia de acumulação.

Banco Master: a engenharia financeira do saque

Entre 2023 e 2024, o Banco Master teria desviado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de triangulações financeiras, prática conhecida no mercado, mas raramente punida quando envolve grandes grupos econômicos.

Esse tipo de operação revela o coração do capitalismo financeirizado: dinheiro não é investido para produzir riqueza social, mas para se reproduzir artificialmente, sugando fundos públicos, dinheiro dos nossos impostos, crédito barato e brechas regulatórias.

Enquanto isso, o discurso dominante segue apontando o dedo para o Estado inchado, quando na prática o Estado funciona como seguradora de último recurso do capital e suas fraudes, ou seja, Estado máximo para os ricos quebrarem as empresas e a economia do país com a garantia da intervenção do Estado para salvá-los, e Estado mínimo para quem mais precisa de políticas sociais.

Compare o tratamento da grande imprensa desses casos com as coberturas policialescas dos jornais sobre realidade brasileira, como jovens negros presos por furtos de baixo valor, mães criminalizadas por sobreviver e chacinas em periferias.

No andar de cima, a lógica é passar pano:

Fraude vira inconsistência;

Crime vira risco de mercado;

Bilhões desviados viram passivos em negociação.

Como já apontava Marx, a lei nunca é neutra. Ela reflete os interesses das classes dominantes. No capitalismo, a justiça é rigorosa com quem ameaça a propriedade, mas condescendente com quem a concentra.

Enquanto trabalhadores são chamados ao sacrifício de direitos em troca de empregos, a empreender e a se reinventar, o grande capital segue operando acima da lei, protegido por instituições que deveriam regulá-lo.

O verdadeiro escândalo não é a fraude. O escândalo é o sistema que a torna possível e lucrativa.